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O atalho

Por Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

Um pai acompanhou seu filho à Universidade. Quando viu o plano dos estudos, meneou a cabeça em sinal de desaprovação. Conseguiu um encontro com o Reitor da Universidade e lhe perguntou:

  • Meu filho deve seguir este programa? Não seria possível encurtar? Ele quer acabar logo. O Reitor respondeu:
  • Com certeza seu filho pode seguir um Curso mais breve. Tudo depende daquilo que ele quer ser. Quando Deus quer fazer crescer um carvalho, demora vinte anos. Mas gasta só dois meses para fazer crescer uma abóbora.

Uma historinha “da roça” para introduzir a parábola de abertura do capítulo 13 do evangelho de Mateus, a bem conhecida parábola do semeador que encontramos neste 15º  domingo do Tempo Comum. Essa parábola é toda especial. É a primeira do “discurso em parábolas” e suscita, imediatamente, a curiosidade dos discípulo que querem saber  por que Jesus ensina dessa forma e não com discursos eloquentes e claros.

Mais do que a explicação da parábola em si, que também encontramos no evangelho deste domingo, é, justamente, a resposta de Jesus à pergunta dos discípulos que deve chamar a nossa atenção. Segundo ele, as parábolas têm uma mensagem, digamos, escondida; são “os mistérios do Reino dos Céus”. No entanto, a alguns é dado entendê-las ( Felizes sois vós… Mt 13,16) e a outros não. Seria essa compreensão, então, um privilégio, uma discriminação ou outra coisa? Não. A explicação de Jesus é clara: não basta ter ouvidos para escutar e nem olhos para ver. A condição necessária para a compreensão das parábolas é ter, antes de tudo, um coração sensível e aberto. As parábolas não são enigmas incompreensíveis. O que falta é a vontade de se deixar questionar por elas e, portanto, a indisponibilidade a se converter e ser curado.

O que Jesus disse vale para sempre e para todos, porque serve para toda a Palavra de Deus! Não basta “ler” as parábolas – ou a Bíblia toda – para que elas consigam alcançar o mais profundo da nossa vida. Precisa algo mais. As parábolas, como os gestos, os ensinamentos e, sobretudo, a própria pessoa de Jesus, “revelam” a novidade surpreendente do Reino. Nele já está presente o Reino. Os “pequeninos” conseguem ver isso, mas não os “sábios e entendidos”, como dizia o evangelho de domingo passado. A  maior verdade que Deus quis nos fazer conhecer, que afinal é o seu amor sem limites, é simples e pequena, como uma semente e, de muitas formas, é oferecida a todos. A semente que o semeador espalha, a Palavra, o anúncio do Reino, se não vem logo roubada, é fecunda, brota sempre, também em condições adversas. No entanto só pode produzir fruto quando os terrenos, que, afinal, somos nós – a humanidade – a defendemos, a cuidamos, dispomo-nos a deixá-la crescer. Pela parábola, aprendemos que o semeador não olha para os terrenos antes de jogar a semente. Ele a espalha assim mesmo, com abundância e até desperdício se temos uma visão gananciosa. Mas ao Pai e ao Filho, que ele enviou, não interessa poupar a semente, interessa alcançar os terrenos, as diferentes circunstâncias da vida, a diversidade das pessoas e dos seus corações. Somos sempre nós que reagimos, de tantas formas diferentes, à fartura da Palavra que nos é oferecida.

Provavelmente todos nós já temos  experimentado o entusiasmo que dura pouco, o medo das críticas e das zombarias, o sufoco das preocupações deste mundo. Nem precisa incomodar o Maligno para admitir o quanto pouco fica das missas, pregações e rezas das quais participamos. Continuamos o nosso caminho, indiferentes, como se tivéssemos ouvido e visto nada. Simplesmente distraídos ou superficiais. Graças a Deus, o “semeador” nunca desiste. Manda uma mensagem atrás da outra, na esperança que um dia possamos produzir algum fruto. Pode ser o simples “frango de rama”, como o nosso povo chama a abóbora , mas, que bom, quando a semente cresce até ser uma árvore frondosa. Mas esta já é outra parábola (Mt 13,31-32).

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