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O medo e o engano

| Por dom Pedro José Conti, bispo de Macapá

Os discípulos perguntaram ao mestre:

– Qual é o maior inimigo da iluminação?
– O medo. Respondeu o mestre.
– E de onde nasce o medo? Quiseram saber. – Do engano. Respondeu o mestre.
– Mas o que é o engano? Continuaram a questionar os discípulos. – Engano é acreditar que as flores ao nosso redor sejam serpentes venenosas.
– Mas então, como é possível conseguir a iluminação. Eles continuaram a indagar.
– Abram os olhos e reparem bem. Respondeu o mestre.
– Reparar o que, mestre? Falaram juntos os discípulos.
– Que aqui, ao nosso redor não tem cobra nenhuma! Concluiu o mestre.

“Não tenhais medo!” São as palavras de Jesus repetidas três vezes no evangelho do 12º Domingo do Tempo Comum. Mas por que ter medo? Depois da escolha dos “12”, o evangelista Mateus coloca mais um discurso de Jesus para orientar a missão dos apóstolos. Ele é o primeiro a saber que anunciar a novidade do Reino de Deus não será um trabalho fácil. Eles encontrarão muitas dificuldades, serão “como ovelhas em meio a lobos” (Mt 10, 16), serão rejeitados pelos próprios familiares e odiados por muitos. O que Jesus está pedindo é a participação deles numa missão audaciosa, com resultados duvidosos e prêmio imediato nenhum. Ele chega a dizer: “Se ao dono da casa chamaram de Belzebu, quanto mais aos membros da casa!” (Mt 10, 25). Eles teriam, portanto, todo direito de ter muito medo. Mas Jesus insiste: “Não tenhais medo”.

Para vencer esse medo é necessário acreditar, ao menos, em três coisas. A primeira é a promessa que tudo o que ficou escondido será revelado. A referência pode ser as grandes ilusões que fascinaram e continuam a atrair grande parte da humanidade. Todo sistema se considera perfeito e toda ideologia infalível, por isso tem um conjunto de “verdades” indiscutíveis que devem ser aceitas cegamente pelos seguidores. Quem não concorda é considerado um perigoso inimigo.

Outra possibilidade é que o evangelho fale das inúmeras calúnias levantadas contra os cristãos para eliminá-los. Por isso, logo depois, Jesus fala de não ter medo dos que podem matar o corpo, mas não a alma. Essa é a segunda afirmação na qual precisamos acreditar e nela acreditaram os mártires cristãos de todos os tempos. Preferiram desistir desta vida terrena que deixar de proclamar a própria fé em algo bem superior: aquela Vida plena que somente Deus pode dar aos seus amigos. Mártir significa “testemunha”. Quem não está disposto a sofrer por aquilo que acredita ser tão bom, justo e valioso ao ponto de arriscar perder a sua vida, deixa muitas dúvidas sobre no que acredita realmente. Que lição para nós, sempre dispostos a acomodar as coisas! Os mártires verdadeiros nunca foram atrás do martírio, mas quando chegava o momento, não o consideravam uma punição, mas, nada menos, que um “dom” de Deus. Pediam força para vencer o medo, não para serem poupados.

Loucura? Não, fé luminosa, porque confiavam na infinita misericórdia do Pai. Essa é a terceira e a mais importante verdade na qual precisamos acreditar. É a decisiva. O Pai, diz Jesus, toma conta dos pássaros, conhece e ama a cada uma das suas criaturas mais do que pensamos.
O medo toma conta de nós quando nos encontramos na frente do desconhecido, daquilo que não entendemos e que escapa ao nosso controle. Por isso, os poderosos deste mundo querem saber tudo e todos os detalhes das manobras dos adversários. Nós também temos medo da opinião dos outros, de ser apontados como esquisitos, beatos, atrasados e tudo aquilo que muitas vezes escutamos. Isto não significa que devemos sempre apanhar, mas que vale mais a fidelidade nossa e de toda a Igreja ao Evangelho que um consenso duvidoso ou uns aplausos interesseiros. Ao contrário, o medo e a desconfiança de ser usados para outros fins que não sejam o bem comum e a justiça podem nos ajudar a sermos mais fiéis à causa de Jesus. Devemos sempre pedir a luz do Divino Espírito Santo para distinguir as cobras venenosas das serpentes inofensivas. Muito mais devemos apreciar o perfume das muitas flores ao nosso redor, para que a vida se torne um jardim para todos. Têm muitas pessoas de boa vontade, graças a Deus! Basta saber vê-las. 

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