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Vinte cada dia

| Por Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá

Achava-se num asilo de velhos um antigo soldado que, apesar de sua vida de caserna e acampamento, conservava-se dócil e acessível às verdades cristãs. Um padre, que o visitava com frequência, falou-lhe da devoção do rosário e ensinou-lhe o modo de rezá-lo. A Irmã do asilo lhe deu um terço e o velho militar achou tamanho consolo em rezá-lo, e sentia muito não o ter conhecido antes, dizendo que o teria rezado todos os dias.
– Irmã – perguntou um dia – quantos dias há em sessenta anos? Ela fez o cálculo e respondeu:
– 21.900 dias.
– Irmã, e quantos terços eu teria que rezar cada dia para, em três anos, chegar a este número?
– Vinte cada dia – disse a freira. Daí em diante, viam-no, dia e noite, com o terço na mão. Após três anos de sofrimentos, suportados com grande paciência, chegou, feliz, ao seu último terço daquela conta. Os cálculos do velhinho também estavam certos. Poucos dias depois, aquele bom homem chegava ao fim da sua vida na certeza de ser acolhido nos braços de Nossa Senhora.

Neste mês de maio, tradicionalmente dedicado a Maria, Papa Francisco convidou os católicos a rezar o terço “em família”. Parece uma proposta de outros tempos, mas, já que em muitos lugares tantas pessoas ainda terão que ficar “em casa”, por que não aproveitar para rezar essa antiga oração? É muito repetitiva, alguns criticam. Outros acham mesmo que seja uma perda de tempo ou algo semelhante a alguma “prece poderosa”. O terço pode ser tudo isso, mas pode ser também muito mais. Por exemplo a repetição do nome de Jesus junto a um pedido de misericórdia é uma antiquíssima pérola da vida monástica oriental.

Não é uma distração dos afazeres, mas uma forma simples de “ter” o Senhor mais presente em nossa vida, qualquer seja a ocupação naquele momento. Repetir é algo quase automático, ou seja, o nosso pensamento foge quando estamos dizendo sempre as mesmas palavras. Depende, porém, para onde ele “foge”. Se apresentamos ao Senhor e a Maria as pessoas que amamos, as preocupações e os pedidos de ajuda para nós e para toda a humanidade, é uma distração de fé e confiança, na certeza que Alguém esteja nos ouvindo. Não esqueçamos, também, que na reza do terço tem os que chamamos de “mistérios”: gozosos, dolorosos, gloriosos e os luminosos, introduzidos pelo Papa S. João Paulo II. Por fim, rezar o terço é perder tempo? Nesse caso não tenho sugestão porque cada um de nós “perde” tempo como achar melhor, conforme o que decide ser mais ou menos importante em sua vida. Terço “em casa”, então, em família. Quem sabe, todos juntos, com a televisão desligada, para que, ao menos alguns minutos por dia, seja “ela” a rainha do lar, capaz de juntar todos e todas à sua frente. Podemos experimentar. Nestes tempos em que somos obrigados a parar a nossa vida superatarefada, talvez tenhamos a possibilidade de descobrir quanto seja importante ser donos do nosso tempo, para que nós mesmos reaprendamos a decidir mais livremente como ocupá-lo. Nossa Senhora, como uma mãe carinhosa, vai nos reunir e ajudar muito.

Não falei, ainda, do evangelho do Quinto domingo da Páscoa. O evangelista João nos coloca duas palavras de Jesus muito conhecidas. A primeira é a afirmação: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14,6) e logo depois responde a Filipe que lhe pedia para que mostrasse o Pai: “Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14,9). Esta é uma das verdades mais altas e sublime da fé cristã: é possível conhecer a Deus, o grande desconhecido, que todo ser humano busca mesmo sem saber ou trilhando caminhos contrários. Deus é um Pai porque assim o Filho Jesus, no seu falar e agir, o revelou. Basta admitir as nossas dúvidas e nos deixar conduzir pelo Caminho, pela Verdade e pela Vida – sempre Jesus – não desistindo nunca da nossa inteligência, mas sim da pretensão de moldar a “deus” conforme os nossos gostos ou interesses. E o terço? Vamos juntos, alegres, com tantos Santos e Santas: “por Maria a Jesus” e…por Jesus ao Pai. Para começar um terço por dia pode bastar. Vinte seria demais.

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