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“Lúcia significa luz e ela é esta luz para todos, com certeza”

O Padre Carmelita Romano Gambalunga é o Postulador que conduz o Processo de Beatificação da Irmã Lúcia e falou com a Sala de Imprensa sobre esta causa e a vida da mais velha dos três videntes de Fátima.  

A Irmã Lúcia de Jesus nasceu em Aljustrel a 28 de março de 1907. Este sábado completaria 113 anos. A Sala de Imprensa do Santuário falou com o padre Romano Gambalunga, Postulador-Geral da Ordem do Carmelo Descalço desde junho de 2012, que sem se querer substituir ao juízo da Igreja e, em particular da Santa Sé, acredita, no seu coração, que Lúcia já é Santa: “O que diz o povo de Deus, que é o sentido dos fiéis, é Deus quem o diz! Então, neste sentido estou convencido de que Lúcia é santa”. Depois, avança ainda, “conhecendo-a melhor agora, que estou lendo os seus escritos, também para melhor compreender em que medida ela foi carmelita, mesmo tendo esta missão ligada a Fátima, digo que é uma grande mulher, uma grande santa, porque a raiz da sua santidade foi a de estar imergida, de ficar imergida no amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e de deixar transformar o coração em contacto com o Coração de Jesus e de Maria, e assim chegar a todos”.

Como está a correr o trabalho em Roma, com a elaboração da Positio?

Estamos a trabalhar sem descanso na Positio, isto é, a escrever este livro, no qual se apresenta uma seleção das melhores provas das virtudes que confirmam a santidade de Lúcia, a fim de que teólogos e bispos da Congregação para as Causas dos Santos possam avaliar. Julgo que uma vez apresentada e aprovada, o que creio poderá acontecer no próximo ano, haverá provavelmente, depois, o tempo de trabalho necessário à Congregação, que tem tantas outras causas. É difícil para nós dizermos quando é que esta fase do processo estará concluída. Quem sabe se Deus faz um milagre e esse tempo será mais rápido, como aconteceu com os Pastorinhos.

Nós temos a visita do Papa a Portugal por ocasião da Jornada Mundial da Juventude. Vindo ele a Portugal, também esperamos que venha a Fátima, entende que poderia ser uma boa oportunidade?

Se Deus estiver de acordo também seria uma ótima ocasião, seria mesmo providencial. Mas Deus há de dizer-nos; nós não o conseguimos prever.

O Senhor é postulador e tem patrocinado várias causas. O que é que este processo tem de diferente?

Efetivamente, eu sigo muitas causas através da minha ordem e não só, também causas importantes como foi a dos pais de Santa Teresa do Menino Jesus, de Isabel da Trindade. Mas devo dizer que a causa da Irmã Lúcia, neste momento, para a nossa Ordem dos Carmelitas Descalços, é a causa mais importante que temos, porque, de forma distinta das outras, ou melhor de maneira mais evidente em relação às outras causas, há uma fama de santidade junto do povo que é reconhecida de todos; é, em suma, universal. E depois é uma missão a que recebeu Lúcia, que tem a ver com toda a Igreja, ou seja, a Igreja Católica Universal. Esta é uma caraterística que Lúcia tem e que os outros santos não têm, e que muitas vezes só acontece depois da canonização. Estou a pensar na lógica, por exemplo, de santos europeus. Lúcia já é “santa” pelo povo de Deus.

Uma “santa de ao pé da porta” como o Papa Francisco costuma dizer e como os Pastorinhos são para nós, não?

Sim, sim, com certeza. Devemos perceber bem em que sentido Lúcia de Jesus pode ser considerada uma “santa ao pé da porta”, porque efetivamente ela viveu uma vida muito particular pela missão que teve; mais de metade da sua vida foi vivida fechada no mosteiro de Coimbra e nem todos podiam falar com ela. Havia regras estabelecidas pela Santa Sé, por motivos de prudência e para lhe permitir viver a sua vida monástica contemplativa. Mas, efetivamente, apesar deste viver escondida, por assim dizer, era uma pessoa ao lado de todos, a quem tinha no coração. Tal como o sim que deu a Maria, também foi fiel no seu sim ao cuidado de todos. Por exemplo, no mosteiro estava sempre disponível para todos, muito empenhada nos trabalhos. Quando havia trabalhadores, frequentemente era ela que os acompanhava porque era uma mulher de prática, ou seja, era uma mulher próxima; estava próxima dos seus familiares, sempre interessada pelos acontecimentos da sua família, e a todas as pessoas que pediam ajuda, não só moral ou orações, mas também às vezes material. E quando era possível, com o mosteiro, ajudava. Tinha também esta grande caridade, impressionante até, de responder a todas as cartas que lhe escreviam, de qualquer pessoa, fosse qual fosse o continente, religião ou nível social, ela respondia sempre, ao menos com uma palavra.

O que é que destaca mais na sua vida que possa levar a Igreja a ver nela estas virtudes heroicas de uma santa?

Há caraterísticas de Lúcia que, em parte, têm a ver com todos os santos e, em parte, também são dela, que são seu apanágio, muito pessoais, e que, efetivamente, permitirão à Igreja reconhecer a sua santidade, confirmando o que o povo de Deus já reconhece. Penso que Lúcia é santa por diversos motivos. Em primeiro lugar, foi sempre fiel à missão que Deus lhe entregou, de uma maneira incrível, mesmo quando passou por muitas vicissitudes difíceis e dolorosas, pessoais ou comunitárias, não no sentido do discernimento da vocação, mas na possibilidade de seguir a sua vocação. Ela queria ser carmelita desde criança, mas teve antes de ingressar nas Doroteias por vontade do bispo e, embora isto a tenha ajudado na sua formação, ela teve de lutar. Mas é claro, há um desígnio de Deus em tudo. Ela depois permaneceu uma mulher humilde, muito humilde; como dizia Santa Teresa de Ávila “a humildade é caminhar na verdade”. E este é o segundo aspeto da sua santidade: ela amava a verdade mais do que a si mesma e por isso era também obediente, obediente à verdade que Deus lhe fazia compreender. Esta era a maneira de manifestar o amor a Deus, a gratidão pelos dons que Ele lhe tinha dado, que são muito maiores do que a sua missão. Depois, percebemos que ela viveu uma relação pessoal com Deus que está além da missão que tinha e, neste sentido, a santidade de Lúcia vejo-a mesmo nesta relação, uma experiência profunda da Santíssima Trindade e depois (da realidade) do realismo com que encarava a Palavra de Deus. Lúcia foi fiel às palavras do Anjo, às palavras da Virgem Maria, mas ela encontrava estas mesmas palavras todos os dias no Evangelho, encontrava-as na Sagrada Escritura, e ali escutava Deus que lhe falava e falava com Deus a partir daquilo e isto era a verdade para ela, uma verdade viva. Finalmente, vejo também a missão universal que Lúcia tem ligada a Fátima. A sua grande missão foi a de custodiar e promover a mensagem de Fátima, mas dentro desta mensagem ela tornou-se santa. Tornou-se santa não pela mensagem de Fátima, mas pelo amor que tinha a Deus, pela fé que teve, a grande confiança e pelo grande amor à Igreja. Ela teve um grande amor à Igreja; e mesmo hoje, em tempos difíceis para a Igreja, ela ensina-nos a confiar no Espírito Santo e assim a amar e a apoiar o Santo Padre, seja ele quem for, porque é o sinal da unidade da Igreja, e ela teve no coração a unidade da Igreja e a unidade entre as Igrejas, que é o sinal que Deus dá ao mundo.

O que é que nós podemos retirar das várias fases da vida de Lúcia – porque teve uma vida muito longa – que nos ensinem hoje este caminho de santidade?

Ao contrário do Francisco e da Jacinta que morreram crianças, Lúcia viveu todas as fases de uma vida humana até idade muito avançada, tendo vivido quase 98 anos. Por isso, há um processo de crescimento, há transformações. Neste sentido é verdade que ela pode dizer qualquer coisa a todos, desde as crianças aos mais velhos. Sobretudo pode dizer muito às famílias que devem respeitar as crianças, que devem respeitar os idosos. Mesmo quando dizem coisas ou fazem coisas que não se compreendam de imediato.

Deus não é para perceber, Deus é para amar e as crianças percebem mais do que qualquer pessoa o amor, o que significa confiar em alguém, e têm sensibilidade. Depois há uma vida para viver, há uma missão, há um papel e descobri-lo já é uma graça. Ajuda-nos a ultrapassar as dificuldades, as incompreensões. Veja, Lúcia queria tornar-se carmelita, e o bispo quis que entrasse nas Doroteias para receber uma formação: obedeceu mesmo tendo no coração o desejo de uma vida de recato, de oração. Perante as incompreensões, ela respondia com o amor e dizia tantas vezes: “eu não quero que falem mal de Deus porque eu me porto mal”, ela tinha um sentido de amor, de fidelidade incríveis. Depois quando entra no Mosteiro, onde finalmente esperava viver retirada, deve, ao contrário, sempre responder a alguém: a um cardeal, à Congregação, a um Bispo, à Superiora, ao Provincial, àqueles que a queriam contactar, a um Chefe de Estado ou a um Ministro do Governo… Este é um grande exemplo que dá, com grande humildade: nunca se revolta, sofre as incompreensões, sofre por se sentir diferente e depois envelhece, e na velhice percebe que é o tempo mais precioso na vida de uma pessoa.

Podemos dizer que Lúcia, pelo que é, pelo que representa e pela sua fidelidade, é Fátima?

Lúcia é Fátima no sentido do que Fátima representa para a Igreja e para o mundo: nesse sentido, sim. Porque lhe foi confiada esta missão particular de, juntamente com os  dois primos, custodiar e promover o conhecimento da Mensagem que é um apelo para viver a vida cristã ao máximo e tornarmo-nos seres humanos fraternos, capazes de compaixão e, portanto, que se ajudam mutuamente e que reconhecem a senhoria de Deus, tão esquecida hoje e cujo esquecimento é a raiz de todos os males e mentiras. Portanto, nesse sentido, sim, Lúcia identifica-se com Fátima, com certeza.

O Papa João Paulo II disse, aquando da beatificação de Francisco e Jacinta, que eram duas candeias a iluminar o mundo. A Lúcia é mais do que uma candeia? É uma mulher do mundo atual?

Sim, é verdade.

Ela é certamente uma mulher atual, contemporânea, que tem, digamos, muitas palavras para dizer. De facto, uma das coisas que desejo agora na minha função enquanto postulador não é apenas continuar material e tecnicamente o trabalho, mas o de ajudar todos, e também a minha Ordem, a conhecerem melhor esta mulher e a mensagem que ela tem, que nesse sentido é ainda maior, digamos, que Fátima. Dizia que ela se identifica com Fátima, mas pelo que Fátima representa, então é realmente a mensagem de conversão com a qual o Evangelho de Marcos começa: “O Reino de Deus está próximo, o tempo está completo, convertei-vos e acreditai no Evangelho”. Também eu, como carmelita, entendo porque Lúcia, em seu coração, queria entrar no Carmelo, porque a Virgem Maria apareceu também como Nossa Senhora do Carmo, na última aparição. Porque efetivamente o Carmelo é este lugar na Igreja; pensamos em Teresa de Ávila, João da Cruz, Teresa do Menino Jesus, onde a missão da Igreja é vivida no próprio coração, ou seja, ficando em contacto com o Deus que diz ser o esposo e tornando-se esposos deste Deus, vivendo uma relação de amor que oferece luz. Lúcia significa luz e ela é esta luz para todos, com certeza.

Quais são as suas expetativas reais e concretas relativamente a este processo? Está convencido, pessoal e humanamente, de que Lúcia vai ser proclamada santa?

Em primeiro lugar diz-se: vox populi, vox Dei, o que diz o povo de Deus, que é o sentido dos fiéis, é Deus quem o diz! Então, neste sentido estou convencido de que Lúcia é santa.  Depois, conhecendo-a melhor agora, que estou lendo os seus escritos, estou meditando, também para melhor compreender bem em que medida ela foi carmelita, mesmo tendo esta missão ligada a Fátima. É uma grande mulher, uma grande santa, verdadeiramente sim, porque a raiz da sua santidade foi a de estar imergida, de ficar imergida no amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo; e de deixar transformar o coração em contacto com o Coração de Jesus e de Maria, e assim chegar a todos. Portanto estou convencido, pessoalmente, sem antecipar obviamente o juízo da Igreja, da sua santidade e, por isso, o faço agora que melhor a conheço, com entusiasmo.

 

 

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