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A dúvida da centopeia

Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá

Uma centopeia passeava feliz pelo chão de baixo das árvores da floresta. Alguém lhe perguntou: “Qual é o pé que você move primeiro?”. A centopeia ficou pensativa, depois começou a ficar preocupada. Juntou dúvidas e mais dúvidas. Não teve mais coragem de caminhar. Sem mais forças, morreu ali mesmo. Se tivesse deixado de se preocupar inutilmente e começado a caminhar, estaria ainda viva.

Chegamos ao Quinto Domingo da Quaresma deste ano, a última etapa do caminho dos catecúmenos rumo ao Batismo, na noite de Páscoa, e encontramos o evangelho de João conhecido como a “ressurreição” de Lázaro. Sabemos que, propriamente, o de Lázaro é um retorno a esta vida mortal, algo extraordinário, sem dúvida, mas nada mais. No entanto esta “ressurreição” é o último dos sinais do evangelho de João antes da “hora” da paixão, morte e – esta sim, única e verdadeira – ressurreição de Jesus. Tudo para nos ajudar a acreditar, como Marta, que ele mesmo, Jesus, é “a ressurreição e a vida”. Podemos até chamar a “ressurreição” de Lázaro de “milagre”, mas isso não interessa muito ao evangelista João, po rque par a entender os “milagres” de Deus antes precisa acreditar nele. De outra forma, encontraremos outras explicações ou ficaremos mesmo na dúvida. A fé é um dom do próprio Deus e que devemos pedir com humildade e confiança. Nunca teremos provas cabais para nos obrigar a acreditar. Devemos correr o risco, mas vale a pena; o que está em jogo não é simplesmente esta vida que experimentamos neste mundo, mas aquela Vida plena que, justamente, somente Deus, o Senhor da Vida, pode nos dar. Talvez, nessa página do evangelho de João, esteja escondido o segredo.

Conhecemos Marta e Maria, as duas irmãs, também pelo evangelho de Lucas. De Lázaro não sabemos nada, o que fazia na vida e ele nunca fala. Em Betânia, Jesus encontra uma família toda especial, na qual não tem pai e nem mãe, somente irmãos. Uma clara antecipação da nova “comunidade” de Jesus onde todos devemos nos considerar irmãos. No meio de tantas divisões na sociedade e de famílias onde até os parentes próximos, às vezes, tratam-se como estranhos, este já é um sinal de “vida nova”. Mas tem mais. Lázaro, Marta e Maria são chamados de “amigos” de Jesus. Ele mesmo chama Lázaro de “nosso amigo”. Todos, também, consideram que Jesus amava muito Lázaro e o veem chorar emocionado pela morte dele. Em outras partes do seu evangelho, João chama João Batist a de &ld quo;amigo do noivo” (Jo 3,29) e, durante a última ceia, faz dizer a Jesus: – Eu não vos chamo servos…Eu vos chamo amigos (Jo 15,15). Isso depois de ter dito também que “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a própria vida por seus amigos” (Jo 15,13).

Temos, portanto, algumas palavras chaves para entender a “vida nova” que Jesus quer nos doar: fraternidade, amizade e, obviamente, amor. São palavras, certo, mas são, sobretudo, escolhas, atitudes, laços de novos relacionamentos, sinais de uma humanidade renovada, reconciliada com Deus e entre si. Se o pecado divide, se o ódio de Caim teve como fruto a morte de Abel, a vida doada de Jesus vai gerar uma “vida nova” feita de relações fraternas, promotoras de vida e não mais de morte. Nós cristãos não acreditamos na ressurreição só para o outro mundo, após a morte. Já aqui, neste mundo, é possível e deve começar a vida nova do Senhor. Na sua Páscoa, ele nos amou até o fim e Deus Pai o ressuscitou para nós acreditarmos que somente o amor é o caminho da vida nova.

As Comunidades dos discípulos de Jesus são chamadas a viver a fraternidade, a amizade e o amor entre si, não porque se fecham sobre si mesmas, mas para proclamar, com as próprias vidas, que é possível algo verdadeiramente novo neste mundo. Tudo isso é mais forte do que a morte, porque tem como garantia o próprio amor sem fim de Deus Pai, revelado e manifestado para nós no Filho Jesus. Depois de ordenar a Lázaro para sair do túmulo, Jesus manda que o libertem das mortalhas e o deixem caminhar. Agora Lázaro e todos nós conhecemos o Caminho da Vida. Devemos trilhá-lo, confiantes, se não queremos morrer à toa, como a centopeia. É um risco que vale a Vida.

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