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“Serás libertado pelo direito e pela justiça” (Is 1,27)

Com a Quarta-feira de Cinzas iniciamos o caminho da Quaresma rumo à Páscoa de Jesus e, também, à Campanha da Fraternidade. O tempo quaresmal é sempre um convite à conversão, um “voltarmos” para o Senhor que deve ser, ao mesmo tempo, um voltar para os nossos irmãos se deles nos afastamos por egoísmo, desinte resse ou, mesmo, por maldade. A CF, sobretudo quando nos propõe algum tema de cunho social, evidencia mais ainda este segundo aspecto da Quaresma: não podemos pensar em nos reconciliarmos com Deus se não desejamos também renovar os nossos relacionamentos com os demais seres humanos que, temporariamente, junto conosco, habitam este planeta. Não vivemos neste mundo sozinhos e, se isso condiciona e limita a nossa existência, de outro lado nos oferece a maravilhosa e gratificante experiência da fraternidade, da solidariedade e do amor. Digo isso porque sempre podemos olhar a sociedade na qual vivemos de muitas maneiras: como um empecilho para os nossos projetos individuais ou a oportunidade que nos é oferecida de nos unirmos para melhorar a vida de todos e de cada um.
A proposta da CF de refletir sobre “políticas públicas” parte desse compromisso que é também um desafio. Não podemos mais aceitar as contradições e injustiças da sociedade como algo imutável, querido não se sabe bem por quem e por quê. Devemos acreditar na capacidade dos seres humanos de unir-s e para construir não uma nova Torre de Babel, fruto do nosso orgulho e da nossa ânsia de poder, mas uma sociedade onde seja reconhecida e valorizada a existência e a dignidade de todos os seres vivos. O que são, então, as políticas públicas, objeto da nossa reflexão quaresmal deste ano? A “política” que nos interessa é aquela grande, séria, necessária para a busca de soluções para os diferentes e, na maioria das vezes opostos, interesses das classes sociais que constituem as sociedades humanas. Nenhuma política consegue esse milagre quando a maioria quer tirar vantagem e, se der certo, explorar e enganar os outros; e poucos, ou ninguém, dispõem-se a contribuir para o bem dos demais. Não estamos falando de disputas partidárias ou de projetos de poder e controle social, mas de políticas públicas no sentido de ter como obje tivo o bem de todos, melhor definido como “bem comum”. Obcecados por privilégios, mordomias, muitos direitos e poucos deveres, acabamos confundindo o bem comum com o bem nosso ou do nosso grupo social. Numa sociedade de desiguais, com poderes aquisitivos e de pressão diferentes, somente políticas públicas a serviço das classes mais pobres e mais desamparadas podem amenizar as injustiças sociais. Ninguém cobra a perfeição, mas certas situações de exclusão social e de abandono são gritantes e visíveis aos olhos de todos. Políticas públicas verdadeiras se interessam pela educação, a saúde, os direitos humanos, a assistência social, a economia, a habitação, o transporte, a segurança de todos e, de maneira especial, de grupos específicos como as crianças, as mulheres, os idosos, os indígena s, os camponeses, enfim, os grupos sociais menos favorecidos. Para tudo isso, devem existir políticas públicas nos diferentes níveis: federal, estadual e municipal, conforme as necessidades e as urgências gerais e locais.

O bem comum e a paz social deveriam ser os grandes objetivos de toda e qualquer atividade política e o anseio de toda sociedade democrática. Contrárias a isso, são aquelas políticas que, clara ou sorrateiramente, favorecem este ou aquele grupo social e econômico. O assunto da CF não é nada fácil, pode gerar polêmi cas e até repulsa por aqueles que continuam a pensar que cristão bom é aquele que reza na sua igreja, paga as suas promessas e o seu dízimo, e não interfere na vida pública entendida, afinal, como a vida, os negócios e o dinheiro dos outros. Para quem pensa assim, religião é sinônimo de alienação, como se o cristão estivesse vivendo fora da sociedade e dos laços que inevitavelmente nos unem. É a tentação de ser como Caim quando Deus lhe perguntou: “Onde está Abel, teu irmão?” – e ele respondeu: “Não sei. Acaso sou o guarda do meu irmão?” (Gn 4,9). Somos responsáveis sim, uns dos outros.



Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá

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