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As rosas que não acabavam

Três amigos, bem diferentes entre si, estavam reunidos na casa de um deles, tomando café, quando apareceu um Gênio, como um daqueles dos quais tinham ouvido falar nas fábulas infantis.

– Gênio, o que você nos traz? Perguntaram, agradecendo a oportunidade e esperando algo maravilhoso.

– Rosas. Respondeu o Gênio. Dito isso, entregou um buquê de rosas para cada um. O que fazer com aquilo? Cada um agiu do seu jeito. O ingrato foi o primeiro a sair, achou que não tinha sorte na vida mesmo e jogou as rosas no lixo. O conformado foi o segundo a sair, sem saber o que fazer, foi para casa e colocou as flores num jarro. O generoso, o dono da casa, ficou alegre. Saiu pelas ruas distribuindo as rosas aos vizinhos. Logo percebeu que mais ele as distribuía, mais rosas apareciam nas suas mãos. Elas não acabavam. Todos receberam alguma flor. Finalmente, voltou para casa com um buquê de rosas ainda maior. No dia seguinte, os amigos se reuniram de novo e o Gênio compareceu pela segunda vez. Perguntaram-lhe:

– E agora o que você deseja?

– Quero que as rosas se transformem em ouro! Respondeu o Gênio.

O homem generoso ficou feliz e mais alegre ainda, porque viu que não só ele havia ganhado o ouro, mas todos os moradores da vila aos quais tinha conseguido entregar as rosas. O conformado, só encontrou o seu jarro cheio de ouro. O ingrato, tentou lembrar onde tinha jogado o buquê das rosas, mas alguém o devia ter levado e, assim, ficou sem nada.

Neste domingo, continuamos a leitura do evangelho de Lucas. O ensinamento de Jesus nos parece tão distante da realidade e da nossa vida do dia a dia que, provavelmente, o achamos impossível de ser praticado. Somente os heróis, ou os santos, conseguem amar os inimigos. Não é justo deixar levar as nossas coisas. Apanhar duas vezes, oferecendo a outra face? Nem pensar. Apelamos ao bom senso e à legítima defesa. Não podemos ser “bonzinhos” com os ladrões e, menos ainda, deixar de defender a nossa vida, as nossas famílias e os nossos bens. Emprestar, dinheiro sem ter retorno? É burrice. – Vamos à justiça. É o que mais se escuta. Todos estamos prontos a ir até as últimas consequências para defender aqueles que consideramos os nossos sagrados e intocáveis direitos. Até aqui, não tem nada de novo. Toda a história da hum anidade, a nossa pessoal ou familiar estão resumidas nessas disputas. A que serve a “Boa Nova” de Jesus se a consideramos impraticável? Precisamos entender.

Podemos até aceitar que a linguagem do evangelista Lucas seja demais radical, mas por quê? Porque nós somos mestres dos ajustes de conduta e do mais ou menos. Também o nosso agir funciona na troca, na recompensa, ou seja, queremos ganhar também alguma coisa, ou, pior, no “troco” que nos sentimos obrigados a devolver, quando se trata de ofensas ou coisas semelhantes. É o gostinho da justiça-vingança. Ninguém pede o impossível, nem Jesus, mas isso não nos dispensa de mudar atitudes e maneira de pensar. Para entender a novidade de Jesus basta substituir as palavras “que recompensa tereis?” com as palavras “que gratidão esperais?”. A palavra grega usada por Lucas pode ser traduzida melhor dessa outra forma. Por isso, logo em seguida, o evangelista diz para emprestar “sem esperar coisa alguma em troca” e coloca o próprio Deus Altíssimo como modelo insuperável: ele “é bondoso também com os ingratos e os maus” porque é o Pai de todos, muito além das respostas dos beneficiados (Lc 6,35-36). Esta é também a nova tradução oficial da Bíblia dos Bispos do Brasil. Ou seja: a “recompensa” à qual temos direito e a alegria de esperar é só a “gratidão”. Em lugar da vingança do inimigo, do ódio do devedor e da indiferença de quem pouco ou nada amávamos: a surpreendente gratidão deles. Jesus nos coloca de vez num outro plano de relacionamentos. Quem consegue imaginar uma sociedade onde a lei, invocada como justiça e direito, deixa o lugar à misericórdia e à gratuidade? Comecemos ao menos a ver se funciona entre nós cristãos. Vamos doar “flores” de bondade e de solidariedade a quem encontramos pelos caminhos da vida. As “rosas” do amor nunca acabarão.

Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá

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